Seminário com professores da escola pública debate docência e construção coletiva de saberes

Por Coryntho Baldez

O Salão Dourado do Palácio Universitário da UFRJ, sediou, no dia 20 de julho, o I Seminário com Professores – Entre Narrativas e Saberes: a Construção da Docência na Perspectiva da Justiça Social.

Com atividades pela manhã e à tarde, o encontro buscou contribuir para a formação de professores que atuam em escolas públicas atravessadas por contextos de desigualdade educacional e vulnerabilidade social, tendo a justiça social como eixo central.

Promovido pelo CFP e pela Faculdade de Educação (FE), o encontro reuniu professores da educação básica e da universidade. As atividades envolveram docentes de duas escolas municipais de Pedra de Guaratiba (Rivadávia Manuel Pinto e Professora Elisa Joaquina Duarte Peixoto), que integram o projeto Casa Comum do CFP.

Giseli Barreto da Cruz, coordenadora do seminário e do Geped/UFRJ (Grupo de Estudos e Pesquisas em Didática e Formação de Professores), ressaltou que o evento representou um momento de encontro entre os diferentes espaços da formação docente.

Ela disse que, mensalmente, a equipe do CFP visita as escolas e realiza com os professores rodas de conversa, pesquisas colaborativas e o Ateliê de Pesquisa-Formação.

“Hoje, tivemos o privilégio de recebê-los na Faculdade de Educação para uma série de atividades relacionadas à formação de professores para a justiça social", explicou Giseli, que também é coordenadora adjunta de Ações de Formação e Pesquisa do Complexo.

Mesa reuniu representantes de universidade e de escolas parceiras

A programação começou com uma mesa de abertura formada por representantes da universidade e das escolas participantes do projeto.

Compuseram a mesa a diretora da FE/UFRJ, Ana Paula Abreu Moura; a coordenadora-geral do Complexo, Carmen Gabriel; a coordenadora do Geped, Giseli Barreto da Cruz; Viviany Cecy Nonato de Medeiros, coordenadora pedagógica da escola Rivadávia Manuel Pinto; e Phillipi Assis da Silva, diretor da escola Professora Elisa Joaquina Daltro Peixoto.

Mesa de abertura

"É uma alegria estar aqui participando desse seminário e saber que a faculdade tem interesse em estar na escola, assim como a escola tem interesse de estar aqui. O saber se constrói e se forma conjuntamente”, disse Phillipi, ao exaltar a parceria com a universidade.

Ele contou que a unidade escolar que dirige revisitou recentemente o projeto político-pedagógico em um debate que reuniu professores e funcionários. Na ocasião, foram definidos três pilares: compromisso com a educação pública; entender a escola como espaço legítimo de produção de conhecimento; e valorizá-la como instituição que interage com outras instâncias da sociedade.

“Foi um momento muito marcante. Faltava o braço da academia, que a gente está hoje aqui concretizando”, concluiu.

“Cria” da UFRJ exalta parceria com o CFP

Viviany de Medeiros expressou a sua satisfação por participar do seminário e disse que o trabalho conjunto entre universidade e escola para formar professores é muito importante. Ressaltou, também, que é preciso reafirmar sempre que “estudamos” para ser professor e que está “no lugar que quer estar”.

Afirmou ainda que foi “uma alegria” a escola ter sido convidada para integrar o convênio do Casa Comum e frisou que o desejo dos professores, desde o início, foi o de se envolver nas atividades do projeto.

Ela disse, também, que é “cria da UFRJ” – onde fez a sua graduação – e exaltou a parceria em pé de igualdade entre a universidade e a escola pública: “O saber e o conhecimento se formam conjuntamente”, afirmou a coordenadora pedagógica da escola Rivadávia Manuel Pinto.

“Nenhuma IA vai substituir o professor”

Edson Diniz, coordenador adjunto de Relações Interinstitucionais do CPF, elogiou a postura de professores de escola pública participarem de uma atividade na universidade durante o recesso. “A universidade tem muita a aprender com vocês”, disse.

Ele também falou sobre o papel do professor hoje: “Cada vez mais, a nossa profissão é desafiada a trabalhar com educação num país ainda desigual e que ainda vem enfrentando a desinformação e ideias retrógradas. Por isso, o professor é fundamental e nenhuma Inteligência Artificial vai substituí-lo”, ressaltou.

“Casa Comum expressa integração orgânica com a escola”

Carmen Gabriel frisou que “esse momento de realização do seminário” é a concretização de um projeto, mas também do ‘sonho” de uma articulação mais orgânica da universidade com a escola pública.

Ela lembrou da importância da FE e do Colégio de Aplicação (CAp/UFRJ) na construção do Complexo e na formulação de uma política de formação docente que envolvesse o conjunto das licenciaturas, nas dimensões da extensão, do ensino e da pesquisa.

“Sabíamos também que somente com uma integração horizontal e orgânica com a educação básica poderíamos formar os profissionais que precisamos para enfrentar os desafios dos tempos atuais”, frisou.

“Esforço de aproximação vem de longe”

Ana Paula Abreu Moura deu boas-vindas aos professores e frisou que a UFRJ é uma instituição pública e, portanto, de todos. “Tenho muito orgulho de dizer isso porque a minha vida inteira fui formada por elas”.

“Muitas professoras já discutiam a importância dessa interlocução com as escolas. Por isso, criou-se em 2008 o Cespeb, o Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica, da Faculdade de Educação, que tem como um dos critérios de ingresso ser professor”, destacou.

Ela rememorou que o debate que se fazia à época era exatamente sobre como pensar uma formação docente que não fosse descolada da realidade da escola: “Era preciso aprender com a escola e que a escola também aprendesse com a universidade”.

A diretora da FE também realçou que as instituições públicas têm um papel especial a cumprir na busca pela justiça social: “As pessoas que, muitas vezes, não conseguem entrar nessa instituição são as que sustentam as instituições públicas”.

Por fim, Ana Paula defendeu – “como dizia Paulo Freie” – o papel da docência como forma de intervenção no mundo. “O mundo vai ser o que a gente puder fazer dele, portanto, vamos dar o nosso melhor”, completou.

Oficina de escrita e grupos de trabalho

Após a abertura, a programação prosseguiu com a Oficina de Criação Narrativa, conduzida pela professora Bárbara Sicardi, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que trabalhou a escrita narrativa como instrumento de reflexão sobre a prática docente e produção de conhecimento.

“A ideia é promover um espaço-tempo para resgatar o percurso trilhado no processo de constituição e atuação profissional, publicizando vivências e anunciando inéditos viáveis”, explicou Bárbara ao iniciar a oficina.

A pesquisadora lembrou que a documentação pedagógica é um movimento fundamental para narrar os cotidianos escolares. “É uma possibilidade de reconstrução de si, de olhar o passado com os olhos do presente e ressignificá-lo”, afirmou.

Para ela, a narrativa permite transformar a experiência vivida em experiência formadora, especialmente quando compartilhada com outros.

Em seguida, os participantes conheceram espaços históricos do Palácio Universitário e se integraram aos grupos temáticos, organizados em torno de experiências da docência na educação básica, com os seguintes temas: Justiça Social e Educação Inclusiva; Justiça Social e Diversidade; e Justiça Social e Desigualdades Educacionais.

A programação foi encerrada com uma mesa de síntese e compartilhamento das discussões, mediada por Giseli Barreto da Cruz.


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