I Sespe: mesa debate como a mercantilização da educação impacta a formação docente

Por Coryntho Baldez

A mesa redonda Parceria Universidade-Escola e a Mercantilização da Educação: Desafios à Formação de Professores, realizada em 04/03, no Teatro do Instituto Benjamin Constant (IBC), integrou a programação do I Simpósio de Estágio Supervisionado e Práticas de Ensino (I Sespe).

O debate reuniu a professora Eliana da Silva Felipe, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e Geisi dos Santos Nicolau, diretora da Escola de Formação Paulo Freire (EFP) da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, com mediação da professora Priscila Andrade Magalhães Rodrigues, coordenadora de Estágio da Faculdade de Educação (FE) da UFRJ.

Na abertura, Priscila destacou que o simpósio foi concebido como um espaço de diálogo entre universidade e escola pública em torno da formação de professores. Ela disse que o encontro busca fortalecer uma perspectiva de formação docente construída coletivamente, envolvendo professores da educação básica, docentes universitários, licenciandos e pesquisadores.

Priscila explicou que a proposta da mesa é refletir sobre o estágio supervisionado e as práticas de ensino a partir de diferentes olhares e sujeitos envolvidos na formação docente, valorizando o intercâmbio de experiências entre universidade e redes públicas de ensino.

Mercantilização e ‘filantropização’ da educação

Em sua exposição, Eliana fez uma análise crítica sobre os processos contemporâneos de mercantilização e privatização da educação e seus impactos na formação e no trabalho docente.

Segundo a pesquisadora, a transformação da educação em um serviço passível de comercialização, especialmente a partir das políticas neoliberais dos anos 1990, abriu caminho para “a expansão de mecanismos de privatização e financeirização no setor educacional”.

“Esse processo não se deu predominantemente pela transferência direta da oferta educacional ao setor privado, mas por meio de mudanças na governança das políticas públicas”, afirmou

Tais mudanças, de acordo com a pesquisadora, ampliaram a influência de fundações empresariais e organizações privadas na formulação e implementação de políticas educacionais, por meio das chamadas parcerias público-privadas e redes de cooperação.

Um dos fenômenos destacados por Eliana foi o que classificou como “filantropização” da educação: “É um modelo em que instituições privadas financiam projetos e programas educacionais com forte capacidade de interferir nas políticas públicas”.

Ela salientou que esse tipo de atuação converte recursos privados em capital político, permitindo que organizações empresariais participem diretamente da definição de currículos, modelos de formação docente e mecanismos de avaliação.

Disputas sobre o trabalho docente

De acordo com a professora da UFPA, essas mudanças impactam diretamente a profissão docente. Entre os principais efeitos, apontou a crescente subordinação da lógica profissional dos professores a modelos gerenciais baseados em metas, indicadores e resultados mensuráveis.

Ela sublinhou que existe hoje uma tendência a padronização da formação docente e do trabalho pedagógico, a partir de materiais estruturados e plataformas de monitoramento que limitam a autonomia profissional dos professores.

“O que está em disputa é a própria definição social da docência, ou seja, quem tem autoridade para decidir o que é ensinar bem, o que é uma boa escola e como deve ocorrer a formação de professores”, alertou.

O papel da universidade pública nesse cenário, segundo Eliana, é “fortalecer relações de coprodução de conhecimento com as escolas, valorizar a experiência docente e promover processos de formação continuada que articulem reflexão pedagógica e debate político sobre as políticas educacionais”.

Formação continuada na rede municipal do Rio

Em seguida, Geisi falou sobre a experiência da Escola de Formação Paulo Freire, que atua no campo da formação continuada de professores da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro.

Segundo ela, a política pedagógica da SME está estruturada em torno de um modelo de “coerência educacional” que possui quatro pilares: currículo e materiais pedagógicos, formação continuada em serviço, avaliação e gestão voltada aos resultados de aprendizagem.

“Esse conjunto de ações busca alinhar as orientações pedagógicas da secretaria às práticas desenvolvidas nas escolas”, afirmou.

A diretora da EFP sublinhou que a política de formação da rede busca valorizar a participação dos professores na produção de materiais didáticos e na condução das atividades formativas.

“Tanto o currículo da rede quanto os materiais pedagógicos utilizados nas escolas foram elaborados por docentes concursados, que também atuam como formadores de seus pares nos programas de formação continuada”, contou.

Na prática, explicou, os professores participam de formações ao longo de todo o ano letivo, em grupos organizados por área de atuação ou etapa de ensino.

“Esses encontros são estruturados como espaços de troca de experiências e reflexão sobre os desafios enfrentados nas salas de aula”, disse

Geisi assinalou, ainda, que iniciativas como o I Sespe são importantes para fortalecer a aproximação entre universidade e redes públicas de ensino.

“Discutir formação de professores com a presença de docentes da educação básica é um movimento fundamental para pensar coletivamente os caminhos da escola pública”, completou.

Veja a íntegra do debate.


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