I Sespe: Conferência aponta estágio como espaço decisivo na formação de professores
Por Coryntho Baldez
A conferência de abertura do I Simpósio de Estágio Supervisionado e Práticas de Ensino (Sespe), após a mesa inaugural, em 03/03, foi proferida por Márcia Serra Ferreira, diretora de Formação de Professores da Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e professora titular da Faculdade de Educação (FE) da UFRJ.
Intitulada Estágio Supervisionado e Práticas de Ensino: Caminhos na Construção de um Comum na Formação Docente, a conferência foi mediada pela diretora do Colégio de Aplicação (CAp/UFRJ), Cassandra Marina da Silveira Pontes, que apresentou a trajetória da pesquisadora e destacou sua atuação nas áreas de currículo, ensino de ciências e formação de professores.
Ao abrir a atividade, Cassandra ressaltou a importância do tema do simpósio e da presença de Márcia Serra para refletir sobre os desafios contemporâneos da formação docente.
A mediadora destacou que a trajetória da pesquisadora reúne experiências na educação básica, na formação de professores e na formulação de políticas públicas nacionais, o que confere densidade ao debate proposto no simpósio.
A história do currículo como chave de análise
Ao iniciar sua fala, Márcia Serra Ferreira agradeceu o convite e destacou o significado pessoal de participar do evento. Professora da Faculdade de Educação da UFRJ há quase três décadas, ela atuou na formação de licenciandos em Ciências Biológicas, especialmente nas disciplinas de didática especial, prática de ensino e estágio supervisionado.
A partir de uma perspectiva vinculada à “história do currículo”, ela propôs compreender a formação docente a partir da chamada “história do presente”, que funcionaria “como ponto de articulação entre experiências passadas e expectativas de futuro”.
Assim, destacou, é possível analisar como determinadas ideias e práticas, como a importância da prática pedagógica na formação docente, foram historicamente construídas e naturalizadas ao longo do tempo.
Para a pesquisadora, “compreender essas camadas históricas permite problematizar certezas consolidadas na área educacional e abrir novas possibilidades de interpretação sobre o papel do estágio supervisionado e das práticas de ensino”.
A relevância da prática na formação de professores
Um dos eixos centrais da conferência foi a análise da crescente valorização da dimensão prática na formação de professores, especialmente nas políticas educacionais das últimas décadas.
Segundo Márcia, desde os anos 2000, a formação docente passou a ocupar lugar de destaque nas políticas públicas, “movimento intensificado após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996”.
Programas nacionais passaram então, contou, a incentivar a aproximação entre universidades e escolas de educação básica, reforçando a ideia de que a experiência prática é fundamental para a formação profissional dos licenciandos.
A pesquisadora, no entanto, alertou para a necessidade de olhar criticamente para esse movimento. Em vez de tratar prática e teoria como polos opostos, ela disse que ambos se constituem mutuamente e devem ser analisados em sua relação histórica.
Superando a dicotomia entre teoria e prática
A diretora da Capes também criticou a dicotomia entre teoria e prática na formação docente. Para a pesquisadora, essa oposição tem marcado grande parte dos debates educacionais, “mas não corresponde à complexidade das experiências formativas”.
Márcia lembrou que, mesmo em modelos formativos considerados excessivamente teóricos, como o modelo “3+1” adotado no Brasil no século XX, em que três anos eram dedicados ao bacharelado e um à formação pedagógica, a dimensão prática já estava presente.
Naquele contexto, afirmou, disciplinas como didática geral e didáticas específicas incluíam atividades práticas e mantinham estreita relação com o então ginásio de aplicação, “precursor dos atuais colégios de aplicação das universidades”.
“Assim, a prática pedagógica não é uma inovação recente, mas parte constitutiva da própria história da formação de professores no país”, enfatizou.
Universidade e escola: uma rede de formação
A pesquisadora também apresentou experiências desenvolvidas na licenciatura em Ciências Biológicas da UFRJ, especialmente em parceria com professores da educação básica.
Segundo ela, uma das estratégias adotadas ao longo dos anos foi a construção de uma rede de professores parceiros que participam simultaneamente das atividades de extensão universitária, das práticas de ensino e do estágio supervisionado: “Esse movimento permite que docentes da escola básica circulem nos espaços da universidade e que licenciandos vivenciem o cotidiano escolar de forma mais intensa”.
Ela destacou o Projeto Fundão Biologia, iniciativa de extensão criada em 1983, uma das mais longevas e exitosas da Universidade: “O projeto articula ensino, pesquisa e extensão e promove atividades formativas em parceria com escolas públicas, envolvendo professores, estudantes de graduação e pesquisadores”.
A experiência formativa do estágio
Em seguida, a conferencista apresentou resultados de pesquisas realizadas com licenciandos em estágio supervisionado. Em uma experiência realizada em uma escola municipal do Rio de Janeiro, estudantes participaram da elaboração do currículo de Ciências em parceria com professores da escola.
Ela afirmou que, de acordo com a análise, a experiência contribuiu para a construção de um sentido de autonomia docente entre os licenciandos. “Eles passaram a compreender que ser professor envolve tomar decisões sobre conteúdos, metodologias e materiais didáticos a partir do diálogo com a realidade da escola e dos estudantes”, ressaltou.
Nesse processo, acrescentou, o estágio deixou de ser apenas um momento de aplicação de teorias e se tornou um espaço de produção de conhecimento pedagógico e de construção da identidade profissional.
O estágio como espaço de crítica e transformação
Ao concluir sua exposição, Márcia Serra Ferreira disse que reconhecer a potência formativa do estágio supervisionado exige suspender ideias preconcebidas sobre a escola pública, os professores e a própria profissão docente.
“Historicizar aquilo que parece evidente é uma forma de resistência intelectual e política. Esse exercício permite abrir caminhos para pensar outras possibilidades de formação docente e de atuação profissional”, sublinhou.
Encerrando a conferência, a pesquisadora destacou que a formação de professores deve ser compreendida como um processo coletivo, construído na relação entre universidade e escola.
“É nesse encontro entre diferentes experiências e saberes que se produz o ‘comum’ da formação docente, um espaço compartilhado de reflexão, criação e compromisso com a educação pública”, completou.
Veja a íntegra da palestra.
