Estágio, Pibid e indução docente: identidade profissional em foco no I Sespe

Por Coryntho Baldez

Como formar professores capazes de enfrentar os desafios contemporâneos da escola pública? Essa questão conduziu o debate da mesa-redonda redonda Estágio Supervisionado, Pibid e Indução Profissional Docente: Convergências e Divergências na Formação de Professores, realizada no Teatro do Instituto Benjamin Constant (IBC), em 05/03, durante o I Sespe.

Participaram do debate os professores Nilson de Souza Cardoso, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), e Rejane Maria de Almeida Amorim, da Faculdade de Educação (FE) da UFRJ. A mediação foi feita pela professora Giseli Barreto da Cruz, coordenadora adjunta de Ações de Formação e Pesquisa do CFP/UFRJ.

Autoria docente e formação em contexto

Rejane Maria de Almeida Amorim fez uma análise baseada em pesquisas sobre estágio supervisionado e Pibid desenvolvidas ao longo de sua trajetória acadêmica.

Ela disse que, embora existam diferenças estruturais entre esses dois dispositivos — “o estágio como componente curricular obrigatório e o Pibid como política pública de incentivo à docência” — ambos produzem resultados formativos bastante próximos.

Segundo a professora, um dos seus principais efeitos é o fortalecimento da “autoria docente”, que classificou como “a capacidade de o professor em formação planejar, refletir e desenvolver práticas pedagógicas próprias”.

“Esse processo ocorre, sobretudo, no contato direto com a escola, compreendida não apenas como espaço de aplicação de conhecimentos, mas como lugar de produção de saberes pedagógicos” frisou.

Relatos de licenciandos analisados em suas pesquisas revelam como a vivência no cotidiano escolar provoca mudanças na maneira de compreender o trabalho docente.

“Estudantes destacam sentimentos de desafio, descoberta e transformação ao lidar com situações reais de ensino, reconhecendo a complexidade da profissão e desenvolvendo maior confiança em sua capacidade de atuar como professores, contou.

Outro aspecto enfatizado pela pesquisadora foi o papel do planejamento pedagógico na formação docente. Para ela, tanto no estágio quanto no Pibid os licenciandos têm a oportunidade de construir práticas intencionais e fundamentadas teoricamente, articulando conteúdos, metodologias e contextos educativos.

Aprendizagem da docência e políticas de formação

Na sequência, Nilson de Souza Cardoso abordou a relação entre estágio, Pibid e políticas de formação docente a partir de uma perspectiva das políticas educacionais brasileiras.

Para o professor, essas iniciativas podem ser compreendidas como diferentes momentos de um processo de aprendizagem da docência em contextos reais de atuação profissional.

O pesquisador destacou que tanto o estágio quanto o Pibid contribuem para aproximar universidade e escola pública, permitindo que estudantes vivenciem os desafios e as possibilidades do cotidiano escolar.

“No entanto, é preciso evitar a sobreposição entre essas experiências, já que cada uma possui objetivos e estruturas próprias dentro da formação docente”, disse.

Cardoso também criticou propostas recentes de políticas públicas de formação e inserção de professores na educação básica.

“Em sua avaliação, algumas iniciativas indicam uma tendência de padronização excessiva da formação docente, com orientações prescritivas que podem limitar a autonomia das universidades na organização de seus projetos pedagógicos”, alertou.

O professor citou propostas que defendem o início do estágio desde o primeiro semestre da graduação. Para ele, medidas desse tipo levantam questionamentos sobre as condições reais de formação.

“Como um estudante que ainda está iniciando o curso poderá desenvolver uma reflexão crítica sobre a docência sem ter construído previamente referências teóricas e experiências formativas?”, questionou.

Articulação entre universidade e escola

Outro ponto destacado por Cardoso foi a necessidade de fortalecer a cooperação institucional entre universidades e redes públicas de ensino.

Segundo ele, a formação docente depende de projetos que integrem instituições formadoras e escolas, criando condições para experiências formativas consistentes.

Ao abordar as políticas de indução profissional docente, Cardoso destacou que esse campo ainda está em consolidação no Brasil.

“Algumas iniciativas recentes estão mais próximas de políticas de inserção profissional do que de programas de acompanhamento formativo de professores iniciantes”, disse.

O pesquisador também citou alguns desafios contemporâneos da profissão docente. Entre eles, “a redução da autonomia pedagógica, a crescente padronização curricular e processos de plataformização da educação associados ao uso intensivo de tecnologias digitais para monitoramento do trabalho docente”.

Convergências e desafios da formação docente

Encerrando a mesa, a mediadora Giseli Barreto da Cruz levantou algumas questões sobre os pontos apresentados pelos expositores e destacou que as discussões revelaram mais convergências do que divergências entre estágio supervisionado, Pibid e políticas de indução profissional docente.

A professora acentuou a importância da dimensão da autoria docente apresentada na pesquisa de Rejane Amorim. Segundo ela, a construção dessa autoria é fundamental para o desenvolvimento profissional e a formação de uma identidade docente baseada na criação pedagógica e no diálogo com a realidade escolar.

Ela ressaltou que o planejamento pedagógico não pode ser reduzido ao preenchimento de formulários ou plataformas digitais. “Planejar é um processo reflexivo que permite ao professor ressignificar sua própria prática”, afirmou, destacando o papel da escrita, do registro e da análise da experiência no desenvolvimento da docência.

A mediadora também destacou a importância da coformação entre universidade e escola. Embora a universidade seja responsável pela formação acadêmica dos licenciandos, explicou, há saberes profissionais que se constroem apenas no cotidiano escolar.

“Por isso, professores da educação básica que acompanham estagiários e participam de programas como o Pibid também desempenham papel fundamental na formação de futuros docentes”, sublinhou

Ela alertou ainda para a importância do acompanhamento de professores iniciantes. Segundo Giseli, pesquisas mostram que os primeiros anos de atuação são decisivos para a permanência na carreira docente.

“É nesse período que muitos profissionais enfrentam desafios que podem influenciar sua trajetória profissional”, destacou.

Veja a íntegra do debate.


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